Há quase cinco anos atrás, este blogue foi criado com o intuito de libertar os silêncios que ecoavam por detrás dos dias e das palavras. Esse silêncio falante, bem raso ao sentir e ao existir, ao imaginar e ao criar. Considerei, contudo, que os silêncios, sendo segredos, não deveriam ser revelados, deveriam ecoar na alma de quem os escreve, libertando catarticamente soluções, caminhos, encontros com a essência, a liberdade do Ser. Mas as histórias e as estórias que nos percorrem ou imaginamos deverão elas ser partilhadas com o mundo?
Hoje, dois livros de poesia (editados) depois, um dos quais com o título deste blogue, sei que a Palavra existe para ser partilhada, libertando assim, outros seres como eu, na cumplicidade de nos sabermos todos humanos, já que cada palavra é uma faísca, e de faísca andamos todos cheios, já que todos somos Luz, tentando iluminar as trevas que nos cercam, percorrem ou ameaçam. Todos somos Pó de Estrelas. Parte de um todo, pedaço de Cosmos e quem sabe um dia voltamos para casa.
Enquanto estamos por aqui, Fiat Lux...!
Hoje, dou inicio, então, a transcrição das Folhas Dispersas, desse Avesso dos Dias, que sempre decoraram de intimidade cada caderno, cada folha, cada ficha, cada bloco de notas, agenda, guardanapo de café, areia da praia, cinza de fogo, poeira de estrada... Pela escrita, sempre encontrei o meu caminho. E se alguém um dia eventualmente pensar ou quiser escrever a minha história, ou inventar, acrescentar pontos a estes contos, que se desengane, serei eu a escrevê-la ou ficcioná-la. Sem máculas, sem enganos, sem fugas, subterfúgios ou refúgios. Assim, a verdade pura e crua, ou a ficção desejada. Como quiserem, como imaginarem... Doa a quem doer, aceite quem quiser.
Em analepse, em prolepse, em concomitância, como me surgirem, pela mão do acaso, as folhas dispersas da minha vida, da minha imaginação, desse país de Liberdade, subtilmente compiladas pelo Destino, pela mão de Deus, quiçá, pedindo vez, pedindo a palavra, criando o espaço, o Lugar, para existirem, se redimirem e assim se inscreverem no Futuro, haja o que houver.
«Penso em ti. Nesse teu olhar distante e alheio de quem ama e não sabe dizer como. Nessa tua insistência sábia de quem precisa mesmo de me ver, sem ter de se envolver ao ponto de me prejudicar ou admitir que me prejudicou.
Falas comigo como se o tempo não tivesse passado, como se tudo estivesse parado no momento e a tua obsessão abolisse regras e tempo, no atalho que em mim tanto desejas.
Provas com os argumentos que constróis que apenas o instinto liberta, depois de eu te dizer que o Homem se distingue pela consciência, pela sua vontade de sentir-se feliz em relação de sentimentos e não de instintos, que lhe darão o nada do vazio no regresso a casa. Provo-te, que nem tu que fazes essa apologia, és de facto assim, pois se o fosses, a tua memória não te pregaria a partida de tudo recordares ou de, quatro anos depois, usares a mesma energia e insistência e o teu estratagema se manter.
Mas não, desta vez sou mais resistente ao teu charme, como te disse, e isso não vai acontecer como queres. Também não sou eu quem perde e constantemente desperdiça oportunidades de te ver, mas sim tu que por sentires o que sentes, não te consentes a simplicidade da simples e pura amizade, sem dramas ou pressões.
Sou mais resistente, de facto, e sei dizer não, sem medo ou pena já de te magoar. Terei aprendido, então, que não posso continuar a deixar que suguem a minha energia e me afastem do meu caminho: esse tal da paz, tranquilidade, paixão e luz, tudo no mesmo pacote. Basta dar, basta confiar, basta estar lá, ser pro-activa, na consciência do amar.
Oiço a tua música e, contudo, sei que nunca desististe de mim, mas provo-te que vales muito mais que o simples ofereceres-te como se fosses uma medida de troca, ainda que sempre insistas que apenas isso tens para me dar como te devem ter estragado e arruinado a infância ou qualquer tipo de paz . Garanto-te que não, que és único e especial, que vales a medida dessa especialidade única e intransmissível, embora penses que só por aí és feliz. como se isso te permitisse esquecer, purgar algum tipo de sentimento ou sofrimento ou abuso...
Agora percebo como te devem ter estragado o sentir e arruinado a infância e consequentemente qualquer tipo de paz emocional.
És simultaneamente alguém muito mais novo e tão velho, que não está disposto a largar medos e ver de outro modo, libertar-se para se curar de erros e repetições de filmes. Fico na dúvida
se procuras as mesmas cenas de um guião que não acabaste e pretendes continuar ou se, simplesmente, só sabes fazer o filme dessa forma, porque tens medo de o alterar o guião. E, então, esse guião retrata alguém que apenas existe e sobrevive, mas não vive, porque apenas pretende assegurar necessidades básicas.
Contudo, tem alma de poeta e poderia voar, não fosse ele próprio aprisionar-se à incapacidade de acreditar nas suas qualidades.
É essa empatia de poeta para poeta que sempre me permitiu ver-te como és. Independentemente de rótulos. Acreditei em ti. Vi magia. Vi um diamante perdido. Vi dentro dos teus olhos. Reconheci a tua alma, sabia que me cabia trazer-te para fora de ti próprio, encaminhar-te, dar-te um rumo, um lar, uma luz, motivos de orgulho em ti próprio.
Nessa caminhada perdi-me no dar e fiquei presa. Como o missionário do filme que hoje vi. "Transforma-se o amador na cousa amada", diria Camões, com alguma ironia... E passamos a ter, "com quem nos mata, lealdade"... Nobres sentimentos com quem não sabe nem quer amar.
Nada fantasiei. nada fantasiaste. Mas tudo mudou. Ninguém pode banhar-se duas vezes na mesma água, "Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades" e auto-defendendo-me, como te disse, protejo-te, protejo-me e protejo outros. Talvez se queime um caminho e uma oportunidade de outra vida, mas "se melhorasse, também se estragaria". Talvez. Disseste tu. Depois de não deitares por terra os meus argumentos.
Mas estamos bem assim. No plano da amizade, esse único possível. Mas não, não poderei dizer que estou totalmente arrependida dessa atenção que te dei. Tudo nos acontece por alguma razão. Aprendi com tudo o que vivi. E, como dizia Churchill, "Um homem não se mede pelas situações e dificuldades que atravessa, mas sim pela forma como lida com elas."
E sendo o livre arbítrio uma capacidade nossa, sabe bem sentir que temos escolhas...Que optamos pelos passos a dar a direcção a tomar.E que, mesmo quando nos enganamos, sempre podemos voltar atrás e acertar o passo.
As estradas sempre lá estiveram e estarão. Somos nós que temos de fazer o caminho. We have to make a choice, but I will always love you in that gap of time. "you are different. You are a protector. You care."
in O Avesso dos Dias, Maria Santos.
Livro dos Silêncios Blog
«Quem escreve constrói um castelo e quem lê passa a habitá-lo». Eis um castelo de cartas e outras coisas mais...
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
O Silêncio dos livros
«A ameaça do ritmo do mundo actual aos livros é um falso problema. Havendo mais oferta, há mais possibilidade de escolha - mas as obras que definem uma existência continuam a poder ser lidas - há, de certeza, neste momento mais traduções da Odisseia disponíveis do que há cinquenta anos. Ou há trezentos. Steiner diz que dificilmente aparecerá outro Shakespeare - mas apenas há um por milénio; esperemos mais 500 anos. Enquanto vem e não vem, podemos ir lendo os autores que não são génios (é a centelha de Deus, acessível a poucos), recolhendo nos livros a maior dádiva de todas: a possibilidade de se escolher aquilo em que se acredita.»
(O Silêncio dos Livros, de George Steiner, com um texto adicional pouco interessante de Michel Crépu, é editado pela Gradiva e está à venda na Bulhosa.)
(O Silêncio dos Livros, de George Steiner, com um texto adicional pouco interessante de Michel Crépu, é editado pela Gradiva e está à venda na Bulhosa.)
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